Para os leigos – aliás, até para os técnicos da área, para os peritos, para os comentadores, para os profissionais e mesmo para outros ignorantes na matéria – a economia é uma ciência obscura cujos insondáveis mistérios vão sendo esclarecidos através de um processo iterativo, mistura de tentativa-e-erro com aproximações sucessivas. No maior respeito pelas leis de Murphy (as únicas universalmente respeitadas), sempre que se julga ter obtido todas as respostas, vem essa entidade mística a que se chama “o mercado” e baralha todas as perguntas.
Não surpreende, portanto, que a linguagem própria deste ramo da ignorância – nota: o autor não reconhece a existência de ramos do conhecimento – adquira foros de dialecto ininteligível para o comum dos mortais (admitindo aqui, que os minimecos cabem em tal universo).
Assim sendo, julgou-se oportuno reunir neste breve glossário um conjunto de termos e expressões, por mais frequentes na retórica economistica, cujo significado importa clarificar, para que os minimecos percebam, por um lado, o que aconteceu ao dinheiro que nunca tiveram, e por outro lado, o que vai acontecer ao que ainda têm.
A exemplo de outros glossários (e como acontece com qualquer língua viva), esta edição mantém-se aberta a quaisquer colaborações que contribuam para um melhor esclarecimento sobre o tema, salvaguardadas a decência e a sobriedade que devem ser timbre de uma publicação desta natureza.
Bom proveito…
B
Banca – actividade, ou sistema, responsável por recolher os lucros do investimento alheio e pela distribuição dos próprios prejuízos.
Banco
– o elemento unitário da actividade genericamente designada por Banca. Instituição que, em tempos de abundância, emprestou dinheiro mesmo a quem não o podia pagar, e que em tempos de crise o recusa, mesmo a quem pode.
Branqueamento (de capitais)
– expressão derivada da (anteriormente) mais comum “lavagem de dinheiro”, a qual (e isto é real e a sério) nasceu em Chicago (EUA), durante a famosa “Lei Seca” – os produtores ilegais de bebidas alcoólicas (proibidas pela tal “Lei Seca” que criminalizava o seu comércio) utilizavam lavandarias como actividade comercial de fachada, em cuja contabilidade injectavam os rendimentos ilícitos da sua real actividade (“Money washing”, na linguagem original); o famosíssimo Al Capone acabaria por ser condenado, não pelos crimes por que de facto era responsável – de que todos sabiam, mas ninguém provava (onde é que eu já vi isto) – mas sim porque tinha um TOC incompetente que não lhe soube aldrabar a declaração de rendimentos e fazer coincidir os ditos com a contabilidade da lavandaria. O tipo (i.e. Al Capone) apanhou o máximo que a lei federal permitia para o crime de fraude. Hoje em dia, as “lavandarias” são outras e as quantias em causa muitíssimo maiores – talvez por isso, ninguém investiga tal expediente, ou quando isso é feito, não é, de facto, para levar a sério.
Bolsa –
1 - (cada vez mais) pequeno receptáculo onde os minimecos transportam o produto do seu trabalho (é, aliás, o único objecto criado pela humanidade que se adapta progressivamente à degradação das capacidades físicas do proprietário – à medida que este envelhece, aquele, em compensação, anda cada vez menos cheio, e, consequentemente, mais leve).
2 – Sistema hoje entendido como o barómetro das actividades económicas, não porque as interprete, mas sim porque as influencia, através de um curioso mecanismo de equilíbrio entre a especulação de alguns e a credibilidade da maioria. Em teoria, os praticantes da actividade bolsista são investidores – genérica e erradamente, diz-se que jogam na bolsa, o que faria deles jogadores. Na prática, alguns têm o sentido da especulação e ganham fortunas, e os restantes deixam-se levar sem perceber o mecanismo e perdem o que têm. As empresas nunca ganham.
Buraco – (calão) Em termos poético-económicos, designa o artifício contabilístico que visa camuflar ou esconder o facto de se terem feito muito mais despesas do que seria possível e recomendável. Em linguagem técnica, chama-se engenharia financeira e é um processo de fazer desaparecer enormes quantias de dinheiro sem qualquer explicação plausível. Por paradoxo, quanto maior é, mais tarde é descoberto. Existem muitos, mas nunca se descobriu quem os cavou – o mais recente, veio revolucionar os cânones geográficos, destronando a Grande Fossa das Marianas (ou do Mindanao), e colocando a maior depressão do globo ali para os lados das ilhas das Laurissilvas, em pleno Atlântico (e isto, sem ainda se lhe ter visto o fundo)…
C
Caderno de encargos – sebenta/rascunho onde o Estado estipula aos privados quais são os preços de partida para o fornecimento de um bem ou serviço. O preço final é sempre tão mais elevado quanto mais se prolongue no tempo a finalização e entrega do bem, ou aprestação do serviço. O fornecedor/prestador nunca sai prejudicado. No Estado, nunca se sabe quem sai beneficiado. Os minimecos pagam (o caderno e os encargos) …
Calote
– (calão) expediente muito utilizado pelo Estado, e cada vez mais plagiado pelos minimecos, para protelar sine die a satisfação dos compromissos financeiros assumidos.
Capital – divindade mística diabolizada pela Esquerda e idolatrada pela Direita, que terá inspirado uma prosa, tão extensa quanto incompreensível, redigida por um velhinho alemão, que um outro velhinho micromeco meteu numa gaveta, juntamente com o modelo social que tal obra originou.
Capitalismo – modelo económico que acredita ingenuamente que o ciclo da produção e consumo é uma espiral infinita.
Controlo de custos – expressão humorística entre os micromecos e demais agentes do Estado em geral. Genericamente, indica que não tem qualquer importância gastar-se mais do que o previsto, desde que se tenha uma ideia grosseira do quanto…
D
Dívida – volume astronómico de dinheiro que os minimecos e micromecos vieram gastando alegremente, e muito para lá das suas possibilidades de pagar. Ninguém sabe ao certo a quanto ascende.
E
Empregado –
1 - Na óptica do Estado, é o minimeco que, ainda que temporariamente, não pesa na segurança social
2 - Na óptica do empregador, é o minimeco reivindicativo que há-de querer sempre mais, quando nem sequer justifica o que já tem
3 - Na óptica do desocupado, é o burro que se dispõe a sair cedo da cama para se sujeitar a horários e patrões, e que depois de pagar transportes e refeições fica com menos do que ele, beneficiário do RSI/RMG…
Empresário – entidade a quem é exigido que assuma todos os riscos e que depois é perseguido se tiver lucro. Se tiver prejuízo é igualmente perseguido. Em vias de extinção (no país dos minimecos) e muito tem maravilhado que ainda existam alguns.
Enriquecimento ilícito – figura jurídica criada para a condenação daqueles cuja falta de ambição e estreiteza de vistas não chegou para garantir uma “riqueza sustentável”, ou seja, os “tótós” que não souberam assegurar um cargo de Director-geral, ou de“Administrador-não-executivo”, (remunerados a condizer) numa empresa pública ou fornecedora do Estado
Evasão fiscal – processo legalizado para evitar, a quem ganha muito, o pagamento dos impostos exigido a quem ganha pouco. Alguns casos de “interpretação abusiva” são levados a tribunal – felizmente sem consequências.
F
Finanças (ministério das) – gabinete da administração do país dos minimecos encarregue de estudar novas e imaginativas formas de sacar mais dinheiro aos cidadãos
Fisco – designação carinhosa que os minimecos dão ao sistema de cobrança coerciva de todas as criativas formas de extorsão concebidas pelo ministério da tutela.
Fundos – designação genérica dos dinheiros destinados a determinado fim, cujo destino ninguém conhece.
Fundo perdido – na actualidade, é o que acontecerá à maioria dos empréstimos. É por isso que a Banca anda relutante em concedê-los…
H
Hipoteca - originariamente, era o processo de cativação de um bem (bem hipotecário) para cobertura do valor de um empréstimo. O conceito evoluiu, e actualmente os bens hipotecários são mais um encargo, pelo que o accionamento de hipotecas é economicamente contra-producente, mesmo para a banca…
I
Impostos – roubo praticado pelo Estado, mas com cobertura legal; meios financeiros esportulados aos cidadãos, a pretexto da prestação de serviços e garantia de bem-estar a proporcionar pelo Estado, que na prática se traduzem na prestação de serviços e garantia de bem-estar a proporcionar ao estado (inicial minúscula intencional)
Insolvência – propriedade conferida a alguns agentes da economia que, tendo atingido o ponto em que não conseguem aumentar o endividamento por terem terminado os otários dispostos a consenti-lo, são autorizados a encerrar a actividade sem outras consequências, desde que tenham tido o bom senso de transferir todos os bens penhoráveis para nome de outrem. O país dos minimecos dificilmente ficará insolvente, porque todas as dívidas por que é responsável acabarão por cair no conceito de fundo perdido, para desespero dos seus credores, muitos deles, no ponto de insolvência por isso mesmo.
Investimento – em teoria, dinheiro gasto pelo Estado para a melhoria das condições de vida dos cidadãos e das condições de competitividade da economia do país dos minimecos. Na prática,dinheiro gasto pelo Estado.
J
Juros – são cada vez mais altos. Provavelmente continuarão a crescer… Os minimecos, pagam!
L
Liquidez – aquilo que o Estado já não tem há muito tempo… e a continuar assim, nem os privados
Lucro – o ganho esperado de uma qualquer actividade, depois de deduzidos os custos. O ideal é que isso nunca se saiba…
Luvas – peça de vestuário destinada a aquecer as mãos, muito utilizada (diz-se) mesmo em tempos de canícula… parece estar na moda
M
Milhões
– ninguém sabe ao certo o que isso seja, nem ninguém sabe quantos são. Ver também dívida…
Moeda – se os minimecos não se puserem finos, vão voltar à antiga, ai vão, vão!
Mercado – o conjunto dos actores da actividade económica. Tem a complexidade de um organismo vivo, mas no seu sistema circulatório, em vez de sangue, flui dinheiro. O do país dos minimecos sofre de anemia crónica agravada.
O
Orçamento – exercício aritmético de geometria ajustável que acaba ”invariável mente” por ir ao bolso dos minimecos. Conclui com um documento humorístico que ninguém leva a sério.
Orçamentação
– processo de determinação dos recursos financeiros necessários para uma dada actividade. Estimativa grosseira (ver também “controlo de custos”)
P
Penhora – processo de apropriação dos bens de particulares para redução dos calotes contraídos, uma vez declarada a insolvência. Normalmente, bens de milhões acabam vendidos a tostões, num complexo procedimento em que não beneficia o insolvente nem os credores, mas há sempre incertos que ganham (e bem) com o assunto.
Poupança – conceito incompreensível para os minimecos, à uma porque estão viciados em gastar mais do que ganham, depois, porque com o que ganham actualmente é humanamente impossível poupar seja o que for. Para os micromecos nem chega a ser uma preocupação, principalmente no que respeita aos dinheiros públicos…
Prejuízo – resultado esperado de toda a actividade económica conduzida pelo Estado ou em seu nome. No país dos minimecos é encarado com naturalidade. Os privados procuram a todo o transe que a sua contabilidade o reflicta… vá-se lá percebê-los!
R
Reestruturação – eufemismo utilizado para justificar despedimentos. Não exige mudanças na organização, não obriga a mudar coisa nenhuma, mas deve provocar reduções de custos que é o que interessa – o conceito aplica-se a organizações públicas e privadas.
Resgate – termo conceptual sem aplicação prática quando referido à dívida do país dos minimecos. Teoricamente, seria a anulação da dita, através do pagamento da mesma. Na prática, receia-se que seja impossível, a menos que venha uma revolução de hábitos e de mentalidades, o que não se afigura como próximo…
Rigor – adjectivo nãoapropriado a tudo quanto diga respeito a economia e finanças no país dos minimecos.Mantém-se como ideal quimérico, mas ninguém, de facto, acredita que tal sejaatingível, e muitos, nem mesmo desejável.
S
Salário – em teoria, o pagamento percebido por um empregado em resultado do trabalho desenvolvido nos termos contratados. Deveria ser suficiente para garantir condições de vida e de manutenção da economia doméstica, o que raramente acontece no caso dos minimecos, excepto se tiverem atingido o estatuto de micromecos. Os dos gestores públicos são invejáveis…
Salário mínimo – salário em modelo“sport”: extremamente leve, e desaparece no horizonte com uma rapidez estonteante, assim que começa essa competição chamada consumo. Naturalmente, em tal competição, a maioria dos competidores está em situação de “falsa partida”, mas ninguém parece importar-se muito com isso.
T
Transparência – fenómeno óptico que quando analisado à luz das operações financeiras no país dos minimecos significa, de facto, translúcido. Na maioria dos casos, é uma propriedade indesejável, quando não, perigosa. Aplica-se na intenção de deixar ver aquilo que interessa e ocultar o que possa provocar reacções de incompreensão.
Tesouraria – etimologicamente, e em linguagem de economia, refere-se a operações de entrada e saída de dinheiro vivo, e ao respectivo saldo. No presente, a economia abastarda-se de alfaiataria e tesouraria significa mais cortes…