sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O NAL (Novo Aeroporto Lindíssimo)

 


Eu sei – o NAL (Novo Aeroporto Lindíssimo) é um assunto que já vem sendo estudado desde os tempos em que, pasme-se, ainda nem havia aviões. E ainda há quem diga que no Minicómio tudo se faz de improviso, sem planos, sem lei nem ordem.

Naturalmente, coisas desta magnitude querem-se pensadas e tantos são os interesses envolvidos que será difícil contentar todos.

Assim de repente, este que vos escreve, numa orgia de sinapses sem paralelo, descobriu uma solução que só pode ser a perfeita: em vez de um grande NAL, o que os minimecos precisam é de pequenos Nós Aéreos Ligeiros (até se mantém o acrónimo, o que facilitaria a distribuição de verb… aaahhhh… de passageiros, é isso, de passageiros) o que evitaria concentrações excessivas, permitiria encaminhar visitantes e outros viajantes para áreas onde de imediato sentissem a acessibilidade aos seus anseios e agrados e permitiria contentar, se não todos, pelo menos a larga maioria.

Vejamos:

1 - Sem querer transformar o Minicómio num destino de turismo sexual, não queremos também excluir os viajantes que não rejeitam a cedência a tentações das mais diversas. Aliás, o Minicómio, como destino ou como ponto de partida, pugna por ser inclusivo. Nesta medida, faz sentido a erecção de NALs nas seguintes localidades: Alçaperna (Lousã), Bendada (Belmonte), Bicos (Odemira), Coina (Barreiro), Colo do Pito (Castro Daire, Viseu), Curral das Vacas (Chaves), Lugar das Porreiras (Matosinhos),  Monte da Agachadinha (Odemira), Monte do Bom Sítio (Odemira), Pedaço Mau (Vila Nova de Famalicão), Perna De Pau (Sobral de Monte Agraço), Picha (Castanheira de Pena), Pico da Regalada (Vila Verde), Porreiras (Paredes de Coura), Porto da Carne (Guarda), Sobral Pichorro (Fornos de Algodres),  Vale das Gatas (Sabrosa), Monte das Pitas (Silves), Pêga (Guarda), Vacaria (Oliveira de Azeméis), Vale da Porca (Macedo de Cavaleiros), Vale de Prazeres (Fundão), Várzea da Ovelha Aliviada (Marco de Canaveses), Venda da Gaita (Castanheira de Pêra), Soito da Ruiva (Arganil), Solteiras (Tavira)  e, finalmente, Venda das Raparigas (Benedita, Alcobaça).

Como se vê, se o assunto cheirar a pouca-vergonha e promiscuidade, a oferta disponibilizavel pelo Minicómio é variadíssima, o que sugere que os minimecos são um povo bastante dado à diversão.
Por maioria de razão são de evitar locais como (e que me perdoem os seus habitantes) Derreada (Castanheira de Pêra), Manta rota (Vila Real de Santo António), Maria Vinagre (Aljezur) e Moço Morto (Vila Nova de Famalicão) – são locais que afastam de imediato toda a ideia de romantismo.

 2 – Para os viajantes apaixonados o país deverá construir NALs em Amor (Leiria), Casal Paixão (Mafra), Desejosa (Tabuaço), Namorados (Mértola e/ou Castro Verde), Paixão (Celorico de Basto), Vale Paraíso (São Martinho do Porto).

Mas porque paixões há muitas e deve o Minicómio ser apelativo em vez de agoirento, são também de evitar locais como Boi Morto (Marco de Canaveses), Monte de Bois (Alcobaça)  e Boidobra (Covilhã), Cabeçadas (Oliveira do Hospital) e Cabeçudos (Vila Nova de Famalicão), Corno de Bico (Paredes de Coura), Sarilhos Grandes (Montijo), Sarilhos Pequenos (Moita) ou Vale de Azares (Celorico da Beira).

Ratoeira (Vila Nova de Cerveira) também não será muito recomendável pela conotação negativa que confere à relação amorosa a quem nela está de boa-fé.

 3 – Para viajantes obcecados com a higiene o país pode sempre construir NALs em Água Todo o Ano (Ferreira do Zêzere) Lavacolhos (Fundão) e Baixa da Banheira (Setúbal). Para estes, há que evitar sítios como o Mal Lavado (Odemira).

 4 – Para quem sofra de problemas de obesidade, o Minicómio pode oferecer-lhes  A-Da-Gorda (Óbidos) ou a Orca (Fundão).

 5 – Também a oferta religiosa pode ser alargada, construindo NALs em Chão Duro (Moita) e Crucifixo (Tramagal) – ambos destinados aos mais penitentes - embora subsistam dúvidas se se justificará mais uma opção em Purgatório (Albufeira). De todo é de evitar Degolados (Campo Maior) porque poderá ferir susceptibilidades por parte de algumas correntes religiosas que verão nisso um estereotipo insultuoso.

 6 – No domínio da geriatria e da ortopedia o Minicómio pode construir NALs em Cotas (Alijó e Soure) ou Coxo (Oliveira de Azeméis e Felgueiras).

 7 – Restam ainda algumas opções para futuros NALs, como A-Dos-Cunhados (Óbidos) para congressos políticos do arco do poder, Botafogo (Elvas), Carne Assada (Terrugem, Sintra) e Carro Queimado (Vila Real)  para negociantes de equipamentos de combate a incêndios, madeireiros e outros interessados, Cubos ( em Portalegre, Mangualde, Vieira Do Minho e Valença) para amantes da matemática e da geometria, Nariz (Aveiro) para estudiosos da otorrinolaringologia e para os mais exotéricos ainda se apresentariam NALs em Deserto (Alcoutim) e Imaginário (Caldas da Rainha).

 Sendo o NAL discutido há (pelo menos) meio século, julgo ter, desta forma, contribuído para enriquecer a ideia e já que qualquer um dá palpites e promove debates com propostas avulsas, atrevo-me a dizer com toda a imodéstia que esta minha proposta é a mais abrangente que já tive a oportunidade de ler e a que tem mais possibilidades de contentar mais minimecos (e mesmo micromecos e um ou outro badameco). Sendo eu um deles, encerro a ideia com uma última proposta e que, sugerindo um lugar central, teria grandes possibilidades de granjear a maior intensidade de tráfego de passageiros: Pedros (Figueira da Foz).

Depois deste último “sim”, encerro com a recomendação de um último “não”: evitem a Campa do Preto (Gemunde, Maia) devido às conotações racistas que inevitavelmente irão surgir. 

E com isto ponho a última pedra no assunto.

(PS: Faço notar que esta minha sugestão tem um outro mérito que é o de ser a que é mais inclusiva que também já me foi dado a escrever: em todo o texto falei de viajantes, e não de minimecos ou minimecas, indo deste modo ao encontro da, tão em voga, igualdade de género.)

 

 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Entre comboios e aviões... não saímos do mesmo

 Prontus!
Desde que, dois anos atrás, um pateta (hoje alcandorado à catedra de menistro) fez um plano a que chamou "de restauro e resistência" (vulgo PRR), mas que mais honesto teria sido chamar-lhe "de retribuição e redistribuição (pelos de sempre)" que era previsível que devaneios destes acabassem por se ameaçar uma realidade.

Ele é o aeroporto da capital, que dizem estar esgotado, embora isso careça de melhor prova do que o ser afirmado por papalvos a soldo (que falem de questões de segurança, ainda vá, mas não há provas de voos cancelados ou autorizações de aterragem negadas por falta de espaço ou de tempo), e ele é o TGV, isto é, o Transporte dos Grossos Valores (para os de sempre).

Com o aeroporto, é o que se sabe: estudos atrás de estudos (sabe-se lá quem os paga) e a cada um surge uma nova área onde o construir, cada uma delas com mais vantagens e menos inconvenientes que a anterior.

Com os comboios a coisa pia mais fino: antes, a aposta estratégica era a da ligação à rede de alta velocidade do país vizinho (e por essa via, aos países da grande confederação faquioutu), agora, parece ser a de garantir a união nacional e eliminar o bairrismo do Norte, prometendo-lhes uma ligação à capital meia hora mais rápida que as melhores actuais.

Evidentemente, quem paga estes desmandos são os que raramente irão fruir dos mesmos - os minimecos.

Evidentemente, quem manda fazer, não lhe saindo do bolso, não está preocupado com estudos de mercado que analisem a procura e que prospectivem preços de utilização convidativos para potenciais utentes e compensadores para os mais que certos pagadores.

Os micromecos do governo já se comprometem a avançar - coitados, não tiveram no Natal aquele comboio electrico que anos a fio pediram ao pai Natal e agora querem um a sério.

Os outros, os minimecos, apenas abanam a cabeça tristemente... é que entre comboios e aviões, ninguém sai do mesmo (mas ganham-se 30 minutos entre a capital do país e a capital do Norte)

sábado, 24 de setembro de 2022

Glossário dos termos e expressões do "politiquês" no Minicómio

 Onde se explica aos minimecos e aos próprios oradores o significado das expressões e termos mais frequentes nas oratórias politicas, para usança e governança de uns e de outros, e, se possível, para que os minimecos entendam e desculpem as acções e omissões dos seus micromecos...

Os termos descritos traduzem a rigorosa interpretação e sentir de quem os utiliza (micromeco ou não), relativamente aos mesmos, quando os emprega – portanto, em que é que realmente a pessoa que fala está a pensar quando o diz.

Adianta-se que, possivelmente, o glossário à frente discriminado (e espera-se que também des-criminado) poderá ser aplicável a outras nações que não apenas a dos minimecos, salvas as devidas traduções cujas imprecisões naturalmente resultantes, não poderão ser imputáveis à boa-vontade do compilador.

A

Administração – processo político de distribuição de lugares do Estado, e do desperdício de dinheiros públicos.

Agricultura – área de actividade de colecta fiscal inexpressiva, mas com impacto eleitoral; fonte de problemas.

Amigo – alguém que colaborou de forma activa na propaganda eleitoral e contra os adversários políticos; alguém que oculta os pecadilhos dos micromecos e até colabora com eles; alguém a quem se devem favores políticos; fonte de problemas.

B

Borrada – (gíria jornalística) justificação apresentada para decisões incompreensíveis; fonte de problemas

Burrada – ver borrada;

Burrice – ver burrada

C

Cagada – ver burrice

Coligação – espécie de casamento de conveniência em que as famílias se vituperam mutuamente e os noivos nem se podem ver (ninguém sabe por que se fazem, mas, segundo se diz, a alternativa ainda era pior); fonte de problemas

Comunicação social – cambada de sanguinários desligados da realidade e que criticam “as soluções”, sem conhecerem “os problemas”; gente informada, respeitada e credível, quando aprovam as decisões do governo; fonte de problemas.

Comunismo – modelo político-económico caído em desgraça, mas que devido à sua conotação totalitária colhe secretas simpatias entre a generalidade dos micromecos, principalmente os do governo; papão a agitar, sempre que as circunstâncias se revelem convenientes.

Contribuinte – os minimecos em geral; conjunto de indivíduos, organizações comerciais e industriais a quem é possível sacar dinheiro; indivíduo gerador de receitas desde que nasce (e isto, porque ainda ninguém se lembrou de tributar a partir da 1ª ecografia) até que morre (e a vingarem as mais recentes tendências, até depois disso). Fonte de problemas.

Cortes – aquilo que constitui o pesado ónus para os micromecos do governo imporem como indispensável aos minimecos, e os micromecos da oposição criticarem. Depois trocam. Os minimecos são sempre os mesmos. Fonte de problemas.

Cultura –sorvedouro de dinheiro; algo que consome tempo, para dar a ideia de que nãoestá ao abandono; fonte de problemas.

D

Defesa – área obscura que tem a mania de ter implicações em todas as restantes; ciência abstrusa e improdutiva; sorvedouro de dinheiro; fonte de problemas (ver também– militares).

Democracia – modelo político que autoriza os minimecos a protestarem contra as decisões dos micromecos… desde que as acatem. Fonte de problemas.

Desaire eleitoral  – o resultado das eleições para todos os partidos que não o do entrevistado, independentemente da expressão desse mesmo resultado.

Desempregado – indivíduo improdutivo; indivíduo não tributável; sorvedouro de dinheiro; fonte de problemas.

Desemprego – fonte de problemas.

Dinheiro – a única razão de ir p’ró governo; bem supérfluo que não traz a felicidade e que os micromecos retiram aos minimecos, para distribuição segundo critérios adequados às circunstâncias, em inequívoca demonstração de espírito de sacrifício em prol do bem comum; fonte de problemas.

Direito - ???(interrogados vários micromecos, embora admitam usar o vocábulo com bastante frequência, reconhecem não fazer ideia do que se trata… aparentemente, “fica bem” mencioná-lo repetidamente); fonte de problemas.

Direitos – bandeira a agitar durante as campanhas eleitorais ou quando na oposição, e a arrumar discretamente quando no governo; fonte de problemas.

E

Economia – ciência esotérica para entreter alguns eruditos e a comunicação social; conjunto das actividades tributáveis; fonte de problemas.

Educação – parvoíce substituível por programas de aprendizagem ao longo da vida (vulgo – novas oportunidades), com muito mais economia e muito mais produtividade; ver cultura.

Eleições – processo financeiramente oneroso, mas de retorno rápido em caso de sucesso; um dos maiores defeitos da democracia; a incerteza no resultado é uma fonte de problemas.

Empresas –organizações tributáveis; fontes de receitas; fontes de problemas.

Ensino – ver educação.

F

Feminino / masculino – manobra dilatória para encher discursos oriundos de cérebros vazios com o objectivo de distrair a audiência da verdadeira essência do que está em discussão, segundo fórmulas do tipo “quero dizer com toda a clareza às minimecas e aos minimecos… blá, blá, blá” – o discurso ganha tanta mais consistência quanto o maior número de vezes que se consiga repetir a fórmula, vá lá, variando a adjectivação. O significado do conteúdo varia na razão inversa.

Fonte de problemas

– ver agricultura; ver amigo; ver borrada; ver burrada; ver burrice; ver cagada; ver coligação; ver comunicação social; ver contribuinte; ver cortes; ver cultura; ver defesa; ver democracia; ver desempregado; ver desemprego; ver dinheiro; ver direito; ver direitos; ver economia; ver educação; ver eleições; ver ensino; ver empresas; ver forças policiais. Mais adiante,também: ver forças policiais; ver jovens e crianças; ver medidas; ver militares; ver oposição; ver política externa; ver povo; ver religião; ver reformados; ver saúde; ver sindicatos; ver sondagens; ver trabalhador; ver...

Forças policiais – grupo de gente parecida com os militares, que cada vez que actuam têm o condão de indispor os minimecos contra os micromecos; sorvedouro de dinheiro; fonte de receitas em coimas e multas diversas; fonte de problemas.

Futebol – o 2º ópio do povo, a acarinhar, mesmo que o número de estrangeiros na liga seja superior ao dos minimecos de gema.

G

Greve – imperfeição da democracia e um dos seus maiores defeitos; problemas.

I

Impostos – extorsão ao abrigo da lei; fonte de problemas; FONTE DE RENDIMENTOS (que se f… os problemas).

J

Jovens e crianças – grupo de gente improdutiva, embirrenta e irritante, de saldo fiscal negativo; bando de parasitas; convém juntar bandos sorridentes, armados de bandeirinhas nacionais para exibição à comunicação social durante as ocasiões em que os micromecos descem ao povo. Fonte de problemas.

Justiça

– ver direito

L

Lei

– ver justiça

M

Medidas – algo que é preciso dar o ar de estar a propor; algo que merece atenção, porque alguém as vai virar contra o proponente; fonte de problemas.

Militares – hoste ameaçadora cujos antecedentes intervencionistas nos assuntos da governação recomendam que sejam tratados com pinças, mas reduzidos à inoperância; grupo profissional de organização complexa e utilidade desconhecida; sorvedouro de dinheiro; gente a chamar quando tudo o resto falha; fonte de problemas (ver também: defesa)

Monárquicos – tipos patuscos que gostam de fados e de touradas o que já justifica que devam ser mantidos; alguns são boa fonte de receitas; não dão despesas e se deixados entregues a si próprios não criam problemas.

O

Oposição – (termo apenas utilizado pelos micromecos em funções governativas) conjunto de indivíduos, minimecos e micromecos, que por desconhecerem os problemas, por acreditarem em utopias, e por viverem alheados do pragmatismo da vida real, se permitem a aleivosia de contestar a sageza e oportunidade das medidas decididas por quem mereceu a confiança do eleitorado para as pensar e implementar; fonte de problemas.

Ordem – conceito muito defendido pelos micromecos do governo, e muito desincentivado pelos da oposição. Depois trocam.

P

Política externa – actividade através da qual se espera conseguir mais uma fonte de reforços para a tesouraria, além da oriunda das receitas de tributação; fonte de problemas.

Poupança – estímulo a dar aos minimecos, desde que isso não prejudique os resultados da tributação.

Povo – universo de indivíduos votantes, ou potencialmente votantes; universo de indivíduos tributáveis, ou potencialmente tributáveis. Fonte de problemas.

Prostituição – actividade proscrita por não-tributável; a manter, por constituir o 3º ópio do povo.

Protestos

–  a demonstração da ingratidão dos minimecos para com os seus micromecos. Ver greve.

R

Reformados

– sorvedouro de dinheiro; espera-se que não durem muito; fonte de problemas; (ver também saúde e segurança social):

Rigor – virtude exigível aos minimecos, mas muito flexível e de âmbito muito mais alargado para os micromecos; fica bem em qualquer homilia propagandística, desde que não se caia na tentação de entrar em detalhes.

Religião – o 1º ópio do povo; algo que ajuda a manter a lei e a ordem, reduzindo a contestação;fonte de problemas.

Republicanos – os próprios micromecos em geral; gente que se outorga a exclusividade do epíteto de democratas, embora detestem o conceito de democracia (cujas imperfeições são execráveis). Fonte de problemas.

S

Saúde – sorvedouro de dinheiro; fonte de problemas.

Segurança social

– ver saúde

Sindicatos – fonte deproblemas

Socialismo – modelo político-económico há uns anos fechado numa gaveta por um senhor que já se esqueceu onde raio meteu a chave… já não dá problemas.

Sondagens – instrumento de propaganda cuja credibilidade e aceitação assenta na possibilidade de tornar os resultados favoráveis ao interesse a satisfazer; fonte de problemas

Subsídios – processo de compensação de favores políticos em dívida; sorvedouro de dinheiro; fonte de problemas.

Sucesso eleitoral – o resultado do partido do entrevistado nas eleições, independentemente da expressão desse mesmo resultado.

T

Trabalhador – ver povo; futuro desempregado (ver desempregado); fonte de problemas.

Transparência

– ver rigor.

V

Vitória eleitoral

– ver sucesso eleitoral

Glossário dos termos e expressões do "economês" no Minicómio

 Para os leigos – aliás, até para os técnicos da área, para os peritos, para os comentadores, para os profissionais e mesmo para outros ignorantes na matéria – a economia é uma ciência obscura cujos insondáveis mistérios vão sendo esclarecidos através de um processo iterativo, mistura de tentativa-e-erro com aproximações sucessivas. No maior respeito pelas leis de Murphy (as únicas universalmente respeitadas), sempre que se julga ter obtido todas as respostas, vem essa entidade mística a que se chama “o mercado” e baralha todas as perguntas.

Não surpreende, portanto, que a linguagem própria deste ramo da ignorância – nota: o autor não reconhece a existência de ramos do conhecimento – adquira foros de dialecto ininteligível para o comum dos mortais (admitindo aqui, que os minimecos cabem em tal universo).

Assim sendo, julgou-se oportuno reunir neste breve glossário um conjunto de termos e expressões, por mais frequentes na retórica economistica, cujo significado importa clarificar, para que os minimecos percebam, por um lado, o que aconteceu ao dinheiro que nunca tiveram, e por outro lado, o que vai acontecer ao que ainda têm.

A exemplo de outros glossários (e como acontece com qualquer língua viva), esta edição mantém-se aberta a quaisquer colaborações que contribuam para um melhor esclarecimento sobre o tema, salvaguardadas a decência e a sobriedade que devem ser timbre de uma publicação desta natureza.

Bom proveito…

B

Banca – actividade, ou sistema, responsável por recolher os lucros do investimento alheio e pela distribuição dos próprios prejuízos.

Banco

– o elemento unitário da actividade genericamente designada por Banca. Instituição que, em tempos de abundância, emprestou dinheiro mesmo a quem não o podia pagar, e que em tempos de crise o recusa, mesmo a quem pode.

Branqueamento (de capitais)

– expressão derivada da (anteriormente) mais comum “lavagem de dinheiro”, a qual (e isto é real e a sério) nasceu em Chicago (EUA), durante a famosa “Lei Seca” – os produtores ilegais de bebidas alcoólicas (proibidas pela tal “Lei Seca” que criminalizava o seu comércio) utilizavam lavandarias como actividade comercial de fachada, em cuja contabilidade injectavam os rendimentos ilícitos da sua real actividade (“Money washing”, na linguagem original); o famosíssimo Al Capone acabaria por ser condenado, não pelos crimes por que de facto era responsável – de que todos sabiam, mas ninguém provava (onde é que eu já vi isto) – mas sim porque tinha um TOC incompetente que não lhe soube aldrabar a declaração de rendimentos e fazer coincidir os ditos com a contabilidade da lavandaria. O tipo (i.e. Al Capone) apanhou o máximo que a lei federal permitia para o crime de fraude. Hoje em dia, as “lavandarias” são outras e as quantias em causa muitíssimo maiores – talvez por isso, ninguém investiga tal expediente, ou quando isso é feito, não é, de facto, para levar a sério.

Bolsa

1 - (cada vez mais) pequeno receptáculo onde os minimecos transportam o produto do seu trabalho (é, aliás, o único objecto criado pela humanidade que se adapta progressivamente à degradação das capacidades físicas do proprietário – à medida que este envelhece, aquele, em compensação, anda cada vez menos cheio, e, consequentemente, mais leve).

2 – Sistema hoje entendido como o barómetro das actividades económicas, não porque as interprete, mas sim porque as influencia, através de um curioso mecanismo de equilíbrio entre a especulação de alguns e a credibilidade da maioria. Em teoria, os praticantes da actividade bolsista são investidores – genérica e erradamente, diz-se que jogam na bolsa, o que faria deles jogadores. Na prática, alguns têm o sentido da especulação e ganham fortunas, e os restantes deixam-se levar sem perceber o mecanismo e perdem o que têm. As empresas nunca ganham.

Buraco – (calão) Em termos poético-económicos, designa o artifício contabilístico que visa camuflar ou esconder o facto de se terem feito muito mais despesas do que seria possível e recomendável. Em linguagem técnica, chama-se engenharia financeira e é um processo de fazer desaparecer enormes quantias de dinheiro sem qualquer explicação plausível. Por paradoxo, quanto maior é, mais tarde é descoberto. Existem muitos, mas nunca se descobriu quem os cavou – o mais recente, veio revolucionar os cânones geográficos, destronando a Grande Fossa das Marianas (ou do Mindanao), e colocando a maior depressão do globo ali para os lados das ilhas das Laurissilvas, em pleno Atlântico (e isto, sem ainda se lhe ter visto o fundo)…

C

Caderno de encargos – sebenta/rascunho onde o Estado estipula aos privados quais são os preços de partida para o fornecimento de um bem ou serviço. O preço final é sempre tão mais elevado quanto mais se prolongue no tempo a finalização e entrega do bem, ou aprestação do serviço. O fornecedor/prestador nunca sai prejudicado. No Estado, nunca se sabe quem sai beneficiado. Os minimecos pagam (o caderno e os encargos) …

Calote

– (calão) expediente muito utilizado pelo Estado, e cada vez mais plagiado pelos minimecos, para protelar sine die a satisfação dos compromissos financeiros assumidos.

Capital – divindade mística diabolizada pela Esquerda e idolatrada pela Direita, que terá inspirado uma prosa, tão extensa quanto incompreensível, redigida por um velhinho alemão, que um outro velhinho micromeco meteu numa gaveta, juntamente com o modelo social que tal obra originou.

Capitalismo – modelo económico que acredita ingenuamente que o ciclo da produção e consumo é uma espiral infinita.

Controlo de custos – expressão humorística entre os micromecos e demais agentes do Estado em geral. Genericamente, indica que não tem qualquer importância gastar-se mais do que o previsto, desde que se tenha uma ideia grosseira do quanto…

D

Dívida – volume astronómico de dinheiro que os minimecos e micromecos vieram gastando alegremente, e muito para lá das suas possibilidades de pagar. Ninguém sabe ao certo a quanto ascende.

E

Empregado

1 - Na óptica do Estado, é o minimeco que, ainda que temporariamente, não pesa na segurança social

2 - Na óptica do empregador, é o minimeco reivindicativo que há-de querer sempre mais, quando nem sequer justifica o que já tem

3 - Na óptica do desocupado, é o burro que se dispõe a sair cedo da cama para se sujeitar a horários e patrões, e que depois de pagar transportes e refeições fica com menos do que ele, beneficiário do RSI/RMG…

Empresário – entidade a quem é exigido que assuma todos os riscos e que depois é perseguido se tiver lucro. Se tiver prejuízo é igualmente perseguido. Em vias de extinção (no país dos minimecos) e muito tem maravilhado que ainda existam alguns.

Enriquecimento ilícito – figura jurídica criada para a condenação daqueles cuja falta de ambição e estreiteza de vistas não chegou para garantir uma “riqueza sustentável”, ou seja, os “tótós” que não souberam assegurar um cargo de Director-geral, ou de“Administrador-não-executivo”, (remunerados a condizer) numa empresa pública ou fornecedora do Estado

Evasão fiscal – processo legalizado para evitar, a quem ganha muito, o pagamento dos impostos exigido a quem ganha pouco. Alguns casos de “interpretação abusiva” são levados a tribunal – felizmente sem consequências.

F

Finanças (ministério das) – gabinete da administração do país dos minimecos encarregue de estudar novas e imaginativas formas de sacar mais dinheiro aos cidadãos

Fisco – designação carinhosa que os minimecos dão ao sistema de cobrança coerciva de todas as criativas formas de extorsão concebidas pelo ministério da tutela.

Fundos – designação genérica dos dinheiros destinados a determinado fim, cujo destino ninguém conhece.

Fundo perdido – na actualidade, é o que acontecerá à maioria dos empréstimos. É por isso que a Banca anda relutante em concedê-los…

H

Hipoteca - originariamente, era o processo de cativação de um bem (bem hipotecário) para cobertura do valor de um empréstimo. O conceito evoluiu, e actualmente os bens hipotecários são mais um encargo, pelo que o accionamento de hipotecas é economicamente contra-producente, mesmo para a banca…

I

Impostos – roubo praticado pelo Estado, mas com cobertura legal; meios financeiros esportulados aos cidadãos, a pretexto da prestação de serviços e garantia de bem-estar a proporcionar pelo Estado, que na prática se traduzem na prestação de serviços e garantia de bem-estar a proporcionar ao estado (inicial minúscula intencional)

Insolvência – propriedade conferida a alguns agentes da economia que, tendo atingido o ponto em que não conseguem aumentar o endividamento por terem terminado os otários dispostos a consenti-lo, são autorizados a encerrar a actividade sem outras consequências, desde que tenham tido o bom senso de transferir todos os bens penhoráveis para nome de outrem. O país dos minimecos dificilmente ficará insolvente, porque todas as dívidas por que é responsável acabarão por cair no conceito de fundo perdido, para desespero dos seus credores, muitos deles, no ponto de insolvência por isso mesmo.

Investimento – em teoria, dinheiro gasto pelo Estado para a melhoria das condições de vida dos cidadãos e das condições de competitividade da economia do país dos minimecos. Na prática,dinheiro gasto pelo Estado.

J

Juros – são cada vez mais altos. Provavelmente continuarão a crescer… Os minimecos, pagam!

L

Liquidez – aquilo que o Estado já não tem há muito tempo… e a continuar assim, nem os privados

Lucro – o ganho esperado de uma qualquer actividade, depois de deduzidos os custos. O ideal é que isso nunca se saiba…

Luvas – peça de vestuário destinada a aquecer as mãos, muito utilizada (diz-se) mesmo em tempos de canícula… parece estar na moda

M

Milhões

– ninguém sabe ao certo o que isso seja, nem ninguém sabe quantos são. Ver também dívida

Moeda – se os minimecos não se puserem finos, vão voltar à antiga, ai vão, vão!

Mercado – o conjunto dos actores da actividade económica. Tem a complexidade de um organismo vivo, mas no seu sistema circulatório, em vez de sangue, flui dinheiro. O do país dos minimecos sofre de anemia crónica agravada.

O

Orçamento – exercício aritmético de geometria ajustável que acaba ”invariável mente” por ir ao bolso dos minimecos. Conclui com um documento humorístico que ninguém leva a sério.

Orçamentação

– processo de determinação dos recursos financeiros necessários para uma dada actividade. Estimativa grosseira (ver também “controlo de custos”)

P

Penhora – processo de apropriação dos bens de particulares para redução dos calotes contraídos, uma vez declarada a insolvência. Normalmente, bens de milhões acabam vendidos a tostões, num complexo procedimento em que não beneficia o insolvente nem os credores, mas há sempre incertos que ganham (e bem) com o assunto.

Poupança – conceito incompreensível para os minimecos, à uma porque estão viciados em gastar mais do que ganham, depois, porque com o que ganham actualmente é humanamente impossível poupar seja o que for. Para os micromecos nem chega a ser uma preocupação, principalmente no que respeita aos dinheiros públicos…

Prejuízo – resultado esperado de toda a actividade económica conduzida pelo Estado ou em seu nome. No país dos minimecos é encarado com naturalidade. Os privados procuram a todo o transe que a sua contabilidade o reflicta… vá-se lá percebê-los!

R

Reestruturação – eufemismo utilizado para justificar despedimentos. Não exige mudanças na organização, não obriga a mudar coisa nenhuma, mas deve provocar reduções de custos que é o que interessa – o conceito aplica-se a organizações públicas e privadas.

Resgate – termo conceptual sem aplicação prática quando referido à dívida do país dos minimecos. Teoricamente, seria a anulação da dita, através do pagamento da mesma. Na prática, receia-se que seja impossível, a menos que venha uma revolução de hábitos e de mentalidades, o que não se afigura como próximo…

Rigor – adjectivo nãoapropriado a tudo quanto diga respeito a economia e finanças no país dos minimecos.Mantém-se como ideal quimérico, mas ninguém, de facto, acredita que tal sejaatingível, e muitos, nem mesmo desejável.

S

Salário – em teoria, o pagamento percebido por um empregado em resultado do trabalho desenvolvido nos termos contratados. Deveria ser suficiente para garantir condições de vida e de manutenção da economia doméstica, o que raramente acontece no caso dos minimecos, excepto se tiverem atingido o estatuto de micromecos. Os dos gestores públicos são invejáveis…

Salário mínimo – salário em modelo“sport”: extremamente leve, e desaparece no horizonte com uma rapidez estonteante, assim que começa essa competição chamada consumo. Naturalmente, em tal competição, a maioria dos competidores está em situação de “falsa partida”, mas ninguém parece importar-se muito com isso.

T

Transparência – fenómeno óptico que quando analisado à luz das operações financeiras no país dos minimecos significa, de facto, translúcido. Na maioria dos casos, é uma propriedade indesejável, quando não, perigosa. Aplica-se na intenção de deixar ver aquilo que interessa e ocultar o que possa provocar reacções de incompreensão.

Tesouraria – etimologicamente, e em linguagem de economia, refere-se a operações de entrada e saída de dinheiro vivo, e ao respectivo saldo. No presente, a economia abastarda-se de alfaiataria e tesouraria significa mais cortes…