quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Os sinais exteriores de pobreza

 Aqui há atrasado, havia um primeiro-micromeco a dirigir o governo do Minicómio para quem tudo eram facilidades, sorrisos, festas e coisas boas.

Mas no Minicómio, os contos de fadas nunca têm um final feliz e aquele primeiro-micromeco foi obrigado a vir às televisões (pelo seu braço-direito, o micromeco do confisco) a explicar aos minimecos que afinal quem mandava no país das maravilhas não era a Alice, mas sim a Rainha de Copas e que o país tinha andado a viver acima das posses, e que se via obrigado a pedir ajuda internacional e coiso, e que era tudo culpa da oposição.

Foi sucedido por um outro primeiro-micromeco que instaurou a política de austeridade, cumprindo regras que o seu antecessor tinha acordado com os salvíficos prestamistas - era aquilo ou a catástrofe (embora para muitos minimecos tenha sido mesmo uma catástrofe).

Pseudo-recuperada a situação económica do Minicómio (infelizmente, o país continuava - e continua - a não produzir riqueza suficiente para fazer vida de rico, mas estava mais ou menos já adaptado à vida de pobre a que os seus antepassados sempre estiveram acostumados, e daí a "pseudo-recuperação") apareceu um novo candidato a primeiro-micromeco, ar sorridente, promessa fácil, voz melifluente, a prometer a todos mel e trufas e garantindo virar a página da austeridade.

Eleito para um primeiro-mandato (bom! Eleito, eleito, não chegou a ser, mas por artes retóricas ao nível do gato de Cheshire, conseguiu alianças pós-eleitorais capazes de o alcandorar a tão apetecida posição governativa - para quem não leu a Alice no País das Maravilhas trata-se de um bichano capaz de aparecer sorridente de corpo inteiro, ou de desaparecer deixando apenas a voz audível, ou de desaparecer, ficando apenas visível o sorriso, portanto, com artes mágicas não ao alcance do comum dos mortais) o nosso artista reverte as medidas impopulares tomadas pelo seu antecessor (a maioria das quais negociadas pelo antecessor do antecessor, recorde-se) e, pouco a pouco, ilude os minimecos com a aparência de uma vida melhor, com o que reclamava ter virado a página da austeridade.

Naturalmente, um país que não produz, estará sempre dependente da generosidade dos que produzem. E embora estejam prometidos uns quantos milhares de milhões para o Minicómio, a conjuntura internacional desfavorável aliada à falta de reformas internas já prenunciam nuvens negras no horizonte.

Ciente do peso das palavras, o primeiro-micromeco já vai dizendo que virou a página da austeridade, sim, mas que se avizinham tempos de frugalidade.

Na verdade, os rendimentos até registam subidas (marginais, ridículas, mas ainda assim, em termos nominais, são subidas).

O problema é que os bens de consumo registam subidas maiores.

Ou seja, os minimecos ganham qualquer coisa mais, mas compram qualquer coisa a menos.

São estes, os sinais exteriores de pobreza.

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