quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A transgenerescência no Minicómio

 (Nota: texto produzido em 2020, a propósito de uma proposta de uma das manas mortágua sobre a "liberalização do uso de instalações sanitárias - para que a reflexão não se perca!)

No Minicómio - como em todo o mundo em geral, no qual a sanidade mental está democraticamente distribuída - existem assuntos que dividem as pessoas.
Para que se perceba o que é isso de pessoas divididas, é assim algo como umas de um lado, outras do lado oposto, o que coloca todas em lados opostos, assim umas a favor, outras contra (o que as põe a todas umas contra as outras), e em que umas se acham boas e as outras, por maioria de razão, más, e vice-versa.
São os chamados "temas fracturantes".
Poderia aqui enumerar vários desses temas à laia de exemplo, mas correria o risco de ver a discussão divergir para longe do que me motivou a esta prosa: a transgenerescência!
A transgenerescência é uma coisa muito boa quando falamos da identidade sexual à nascença - pelo menos aos olhos dos "bons", os que exigem o respeito das minorias mesmo que isso corresponda a um desrespeito pela maioria, mas há que compreender que a maioria - apoiada no número - não precisa de quem a defenda e muito menos das minorias, as quais, por definição e inerência de condição são ostracizadas pela dita maioria (a qual é - também por definição e inerência da condição - prepotente e abusadora).
Mas voltemos ao assunto: a transgenerescência é uma coisa muito boa quando falamos da identidade sexual à nascença, mas os mesmos olhos que a vêem com agrado neste caso, já a olham com profunda rejeição quando se trata de cereais genéticamente modificados, mesmo que isso tenha como última vantagem o dar de comer a muito mais gente. No segundo caso, a transgenerescência está a referir-se a transgénicos (os cereais) e no primeiro refere-se a transgéneros (os outros que tais).
Tentando explicar:
Os transgénicos são maus porque são um produto do capitalismo, e da Monsanto, e porque são a implementação de explorações agrícolas de alta intensidade e coiso, mesmo que permitam que muito mais gente tenha que comer - se há mais gente a comer por causa do capitalismo, pois que essa gente seja orgulhosa e passe fome para que os capitalistas percebam duma vez por todas que os trabalhadores estão unidos contra o grande capital, pelas conquistas de Abril, e o povo unido nunca mais será vencido e viva a revolução proletária. Morra o Dantas, morra!!!
Já os transgéneros são bons, porque sim.
E vivam as minorias exploradas. Pim!
Dizem os defensores da categoria que os transgéneros têm iguais direitos e que até isso pode ser uma condição genética de nascença (sim - ainda hoje vi quem defendesse essa teoria numa discussão), caso em que não sei como seriam trans-não importa o quê, porque afinal era apenas a natureza a manifestar-se na sua diversidade que nem sempre conseguiremos explicar racionalmente, mas exactamente por isso, mantém-se como transgéneros.
Também dizem os defensores que tudo isso de nascer menino só porque vem com pirilau ao dependuro, ou menina lá porque nasce com uma pudenda que nem quer, não passam de construções heteropatriarcais e que tudo isso é falso e cada um é aquilo que quiser ser e não aquilo com que nasce.
Eu, por exemplo, sou rico. O facto de não ter dinheiro nem para mandar cantar um cego é uma mera construção. Por isso, exijo ir ao Gambrinus e comer tostas com caviar beluga acompanhadas a Barca Velha 1963... a crédito, naturalmente. Considerarem-me um pelintra é mera construção capitalista e merece o derrube completo, a anatemização por toda a sociedade.
Num outro exemplo, conheço um que era trans-classista e achava giríssimo ser um golfinho. Infelizmente só depois de se atirar ao mar se lembrou que nunca tinha aprendido a nadar e acordou com um nadador salvador (curiosamente, um transgénero) de um metro e oitenta e cinco sentado sobre a sua genitália enquanto lhe fazia com grande profissionalismo e maior satisfação a competente reanimação cardio-respiratória que ia alternando com respiração boca a boca. O dito cujo recuperou, mas não completamente e agora em vez de ser um golfinho acredita ser uma avestruz e tudo lhe serve de susto para enterrar a cabeça na areia e ficar assim de rabinho para o ar - ele há reanimações que deixam marcas psicológicas para o resto da vida.
Mas deixemos isto de lado e voltemos ao tema.
Acreditemos que tudo isto não passa de construções do hetero-patriarcado.
Já há casos de trans-géneros na alta roda de várias disciplinas desportivas... e bem! Aliás, em muitos casos com grande sucesso desportivo - por coincidência, os casos de maior sucesso são jovens cuja pilinha foi para um banco de órgãos e puderam ir competir no universo nascido feminino. Terem crescido em corpo de homem e com a capacidade e força atlética de um homem é apenas construção hetero-patriarcal - é na pista que as forças se medem e bem se vê que quem vence preconceitos pode também vencer no desporto.
Portanto, percebe-se perfeitamente que enquanto a ciência médica não executa as cirurgias necessárias à satisfação do ser de direito contra a imposição do ser de facto, outras situações sejam acauteladas para que os direitos dos membros das minorias não sejam atropelados pelos direitos das maiorias.
Minimecos: não vos deixeis enganar e fazei do MInicómio um país modelo!
Sim: que vão às casas de banho que quiserem. A reacção não passará!

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