“O intelecto é próprio de todos os animais, grandes e pequenos, superiores e inferiores. Não parece, todavia, que o intelecto, enquanto entendido como discernimento, possa pertencer, na mesma proporção, a todos os animais ou mesmo a todos os homens.” (Aristóteles)
Não é fácil, fazer a apresentação do povo minimeco, e é ainda mais ambicioso querer fazê-lo em breves linhas. Logo à partida, porque sendo um povo fictício, em tudo se parece com um outro bem real, e será difícil para quem conheça este a-que-me-refiro-mas-prefiro-não-citar não chegar a um ponto em que não esteja confundido sobre de qual deles se está a falar.
O minimeco é um pequeno povo que habita um território cujos solos nem sempre são fáceis, mas são férteis, abençoado com um clima enganoso, mas cujas invernias recomendam o abandono de antigos preconceitos que insistem em tratar-se de um país quente, e beneficiado com amplas fronteiras marítimas que lhe garantem anexos de território líquido cujas riquezas poderão ser melhor averiguadas - esta é a descrição geográfica mais simples que se pode fazer do Minicómio.
Tantas boas condições permitiriam a um povo decente exibir uma riqueza invejável, mas ditou a providência (não sei se a Divina, se outra) que o povo minimeco, não sendo indecente (no sentido tradicional do termo), seja, contudo, indecentemente atreito a antíteses e a paradoxos, e assim, é sem surpresas que tal povo tenha vivido, e continue a viver, no limiar da miséria.
Como a maioria dos povos, os minimecos dividem-se entre a base e a elite, sendo que na base está o grosso dos minimecos, e na elite estão aqueles alcandorados a uma posição de poder político, económico, ou cultural, que lhes garante as condições para influenciar a vida dos restantes, e nos casos mais apurados, viver mesmo à custa deles. Estes recebem, além de (muitas) outras mercês e privilégios, o título honorífico de micromecos, espécie de nobreza substituta da outra em tempos idos destituída, mas igualmente decadente.
Não é impossível, no país dos minimecos, saltar da base para a elite. Neste espaço de opinião serão aflorados alguns dos processos com maior probabilidade de êxito (e, talvez por isso, os mais comuns e frequentes). Admito como possível (e até provável) a existência de casos que o tenham conseguido por via do trabalho árduo, da dedicação, e da competência profissional – lamentavelmente, para tanto não me chega o engenho e arte, e aquelas embaraçosas traições da memória impedem a citação de casos concretos. O pior disso tudo é que, uma vez atingido o estatuto (algum vírus ou bactéria do ar condicionado, certamente), os micromecos ficam afectados por uma estranha amnésia que os leva a esquecer que eles próprios são, também, minimecos…
O Minicómio, nação velha de séculos, fez boa parte do seu percurso histórico orgulhosamente só. Sendo um povo de indivíduos indiscutivelmente espertos, ou inteligentes, ou mesmo espertos e inteligentes, outro dos seus paradoxos é que colectivamente são um desastre, principalmente para si próprios.
O isolamento auto-imposto foi quebrado aqui e ali por tratados e alianças com nações estrangeiras (que os minimecos acreditam serem amigas), cuja utilidade ou benefício para eles mesmos nem sempre foi evidente (nem é ainda!)
Os minimecos referem-se aos povos próximos como os maximistos. Desde logo, o prefixo “maxi” já indicia um injustificável complexo de inferioridade dos minimecos, relativamente a tais povos. Mas assim são os minimecos: num destrutivo processo de auto-mutilação psicológica, tudo o que os maximistos têm, ou fazem, ou dizem, é para os minimecos mais interessante, mais útil, e mais sensato do que o que têm, ou fazem, ou dizem eles mesmos. Por isso, qualquer imbecilidade proferida por um maximisto é escutada com servil reverência pelos minimecos, e imediatamente transposta para aplicação interna, mesmo que (ou, sobretudo, se) não se tenha percebido patavina da arengada.
Qualquer inutilidade não duradoura produzida em terras dos maximistos, é avidamente importada, comprada, consumida e posterior e inevitavelmente rejeitada pelos minimecos – o processo reinicia-se com a porcaria seguinte que os maximistos apresentem como o produto do futuro. Qualquer par de calhaus empilhados um sobre o outro há uma semana atrás, num qualquer país maximisto, é admirado pelos minimecos como uma grande obra de arte recheada de simbolismo, ou como um grande monumento cujo interesse histórico é inquestionável.
No entanto, o país dos minimecos está cheio – cheiíssimo – de pequenas coisas, de lugares, de construções, de monumentos, com séculos de história e de História – da História que os minimecos não conhecem e que os micromecos lhes continuam a ocultar.
Há indústrias no país dos minimecos que são líderes mundiais no seu segmento de mercado. Há bens produzidos no país dos minimecos que são procurados, apreciados, e pagos, por esse mundo fora. Há cérebros minimecos nos 4 cantos do mundo, nos mais avançados centros de investigação e em empresas da mais sofisticada tecnologia. E são os mesmos maximistos que olham com desdém para o povo minimeco, e que nutrem desprezo pela nação minimeca, os primeiros a procurar minimecos para lhes dar trabalho e que, depois disso, os olham com consideração, respeito, apreço. Porque esta, é outra das contradições dos minimecos: no seu país, cultivam a mediocridade, procuram o nivelamento por baixo, afundam-se (cada um, individualmente, mas também aos que o rodearem) na mesquinhez da inveja rasteira. Mas no estrangeiro, aceitam e fazem todos os sacrifícios, agigantam-se, excedem-se.
Alguns dos povos maximistos iniciaram em tempos uma confederação, hoje já muito alargada, da qual os minimecos fazem também parte – a confederação Faquioutu. Ao contrário de muitas outras confederações, em que os confederados não estão particularmente atraídos uns pelos outros, mas sempre são honestos entre si, na confederação Faquioutu, os confederados dizem adorar-se mutuamente, embora se enganem uns aos outros em quanto (e enquanto) podem.
Os minimecos não o sabem, mas tudo quanto fizeram à sombra da confederação Faquioutu, poderiam ter feito em dobrado, sem ela e sem caírem na esparrela de destruírem o seu modo de vida tradicional e sem destruírem o seu tecido produtivo. Naturalmente, a confederação Faquioutu, como boa irmandade das costas voltadas que é (e sempre foi, não obstante as aparências), não vai resolver nenhum dos problemas do país dos minimecos, primeiro, porque não ganha nada com isso, e segundo, porque não lhes faz diferença alguma – cada um dos Estados desta confederação já tem problemas internos de sobra, para ainda andar a perder tempo e carcanhol com 10 milhões de minimecos.
Voltando ao plano interno, o povo minimeco é aquele que correu com a Monarquia, aclamando a república, ainda que não fazendo a mais pequena ideia da diferença entre uma coisa e outra (e, na verdade, o desengano cedo sobreveio) – no entanto, intrinsecamente mantém o espírito medieval, piamente devoto à sua fé, fiel e servil aos seus senhores, e reelegendo os seus presidentes tantas vezes quantas as suas Leis o permitem.
O povo minimeco foi várias vezes derrotado ao longo da sua História. Mas nunca vencido, acabaria sempre, mais cedo ou mais tarde, por sair vencedor! O povo minimeco, avesso à mudança como nenhum outro, tão habituado está à sua vida no limiar da subsistência, que chega a recusar a riqueza – a tal ponto que quando a tem, rapidamente se encarrega de a destruir. Assim é o povo minimeco, não há 900 anos, mas há muitos mais, ainda antes de se chamar assim. E outros tantos por cá andará, e mais outros tantos ainda, e assim, sucessivamente…
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