sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Entre combóios e aviões, os automóveis vão (ou vão-se)


 Este que vos escreve deve ser lido com o desprendimento simples de quem tem tempo para aturar dislates. (sim, porque isto de arengar por tudo e acerca de tudo, excepto rendas de bilros e olho a mais para tão pouca barriga).

Mas... porque fechar os olhos ainda é pior de que olhar para as coisas sem a certeza de as perceber na sua plenitude, peço ao menos que entendam o dislate como uma humilde exposição de ignorância, na esperança de alguém prestar algum enriquecedor esclarecimento.

Ora o tema d'hoje são os automóveis.

Bom... não é bem o tema (como consequência) mas antes a sua causa.

No Minicómio - país cujo nome sugere ser populado por doentes psiquiátricos, mas não, é habitado por minimecos - existe, como se sabe, uma companhia aérea estatal. Não há aqui grande originalidade, que a maioria dos países mais desenvolvidos ainda têm uma (ou já tiveram, até perceberem que o mercado privado faz o mesmo que o Estado, mas sem riscos para os contribuintes).

O que é original no Minicómio é que essa companhia já nasceu pública, já foi privada, depois recapturada para a esfera pública e agora novamente ao ponto de ser reprivatizada. Não conheço outro país no mundo onde este ping-pong da titularidade de uma empresa tenha sido jogado, excepto, talvez, num outro que todos bem conhecemos, mas nunca citamos.

Não haveria mal de maior em tudo isto, não fosse o caso de que, sendo uma companhia estatal, tivesse sido o povo a pagar a sua erecção (e bem sabemos o que acontece ao povo quando paga estas erecções), e de ser o povo quem paga os prejuízos em cada uma destas transacções, a que se somam as importâncias - sempre vultosas - gastas em recapitalizações e na operação de tão importante companhia.

Dizem os micromecos - recorde-se que por inerência e definição, micromecos são aqueles com o poder de por e dispor do dinheiro dos minimecos - que tal companhia é estratégica para o minicómio.

Claro que eles não fazem ideia do que quer dizer estratégico e eu também não, mas eu posso ser ignorante que ninguém espera mais de mim.

Não se percebe como é que uma companhia aérea pública é estratégica para um país quando nesse mesmo país existe oferta privada que faz exactamente o mesmo (quiçá com melhor qualidade e preço) que a tal companhia estatal, mas lá está: eu sou minimeco e ignorante e portanto é mais que natural que não faça nenhuma ideia, por minima que seja e sobre o que for.

Ora vem agora ao caso - e enquanto esta nova privatização não ocorre - que queria a PDG (acrónimo francófono que abrevia a expressão "Président Directeur-General") adquirir, assim por atacado, umas parcas 5 dezenas de viaturas de alta-gama para os seus administradores.

Não é que eu tenha alguma coisa contra a atribuição de viaturas topo de gama a administradores, mas algo me choca quando isso é feito num momento em que a companhia está com mais um crónico ataque de asma financeira e a sugar milhões que tanta fazem aos minimecos - que um disparate desses aconteça em companhias privadas, até posso aceitar, mas numa pública não me parece bem.

Depois, há que admitir que cada viatura daquelas seria atribuída a um administrador - ora a ser assim, esta seria outra originalidade desta companhia aérea: ter mais do que um administrador (num total de 50?) por cada 2 aeronaves (86, num total de 3 frotas). Não tenho forma de contabilizar os ditos administradores, mas o número de aeronaves é público e consta do próprio portal da companhia (ver link em rodapé a este texto). E se o número de administradores não é 50, então qual será a justificação para as 50 viaturas?

Ora bem, "vamoláver": a PDG advogava que esta aquisição iria permitir uma economia de 600k€. Não sei se disse em quanto tempo. É uma pena não se poderem gastar uns míseros 3M€ e perder assim a possibilidade de "empochar" 600.000. Os minimecos são uns tacanhos que não vêem um boi de economia! Mas prontus: a PDG percebeu o sentir dos minimecos e adiou a compra, enquanto mandando reavaliar a "política de mobilidade" da companhia (que raio será isso? Não sei. Também não tenho que saber). Aliás, não passo de um minimeco e a única coisa que tenho que saber é as datas-limite para o pagamento dos impostos a que o (con)fisco me obriga. O resto, devo deixá-lo aos técnicos, aos peritos, enfim, aos expertos que sabem da poda.

Não sei se a PDG pediu alguma análise de funções desde a base ao topo da companhia, sei lá, a definição de um diagrama organizacional revisto, um quadro orgânico de pessoal, uma redacção de descrição de cada posto de trabalho...

Se calhar é pedir muito...

Vá! Deixem lá a senhora comprar os pópós. Afinal de contas, esses 3 milhões são uma bagatela.

E despachem-se... porque os carros vão-se!


https://www.flytap.com/pt-pt/a-bordo/conhecer-a-frota

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