sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Diário de um assalariado no Minicómio

 Dia 1

Querido diário: hoje, recebi (finalmente) o salário... disseram-me que era o de há 2 meses, e que o do mês passado e o deste mês mo pagam brevemente. Para mim, foi o deste mês, porque as contas por pagar dos dois meses em atraso, já não as vou pagar de forma alguma e com o que ganho já é bem bom se conseguir pagar os gastos do mês que tenho pela frente - felizmente, ganho bastante mais do que o salário mínimo - cerca de 3 vezes mais, o que até é bastante acima da média do país e me coloca no escalão tributário dos ricos. Mas com um filho na escola, nunca sobra grande coisa. Sempre soube a novidade - ver algo no extracto bancário sem o costumeiro tracinho "-" a preceder a quantia... vamos ver até onde o consigo esticar.

Dia 2

Querido diário: aproveitando o salário fresquinho, fui ao hipermercado para tentar compor a dispensa. Está tudo tão caro! Mesmo a comprar produtos de linha branca, a conta final foi exorbitante - 100 euros. Tenho que esperar pelas próximas promoções dos detergentes para a máquina, para tentar compra-los mais baratos - no limite, passamos a lavar a roupa à mão, com sabão, à antiga, embora isso me impeça de passar tempo com o meu filho. Já tinha passado a beber vinho bag-in-box às refeições, mas agora nem esse consigo comprar e a água, já só da torneira, que isto de água engarrafada era um luxo que agora dispensamos - se houver muita gente como eu, toda a cadeia de produção e distribuição de vinhos se vai ressentir...

Dia 3

Querido diário: hoje cairam-me as contas do gás e da electricidade. Um roubo!... e ainda falta a da água. Não vamos ter outra possibilidade que cortar com o aquecimento. Por enquanto, ainda o saldo está positivo e parece que consigo manter as contas equilibradas.

Dia 4

Querido diário: agora chegou-me a conta do seguro do carro e ainda por cima, está na altura de o levar à inspecção. Gaita! Com aqueles pneus à frente ele não vai passar - vou ter que telefonar ao Joaquim para me emprestar uns bons para levar nesse dia e os pneus novos vão ter que esperar pelo subsídio do Natal. Se ao menos tivesse transportes para o emprego, podia deixar de andar de carro.

Dia 5

Querido diário: como não podia deixar de ser, hoje caiu a prestação da casa. Bem arrependido estou de a ter comprado - ainda por cima, as taxas de juro subiram outra vez! Não fosse o mercado estar como está, punha-a já à venda e mudava-me para outra mais pequena.

Dia 6

Querido diário: hoje estive a olhar para as roupas do meu filho - o raio do puto não aguenta um par de calças mais que 3 meses - eu bem lhes ponho joelheiras, quando aparece com elas rotas, mas deixam de lhes servir num instante. O mesmo se passa com os sapatos e o equipamento de ginástica da escola. Já decidi que não compro nada em lojas - vou à feira e quero lá saber se aquilo é feito na China ou se é de contrafacção...

Dia 7

Querido diário: a DGCI mandou-me hoje um mail muito simpático para avisar que no próximo mês está na altura de pagar o IUC. Nunca percebi porque lhe chamam Imposto Único... mas também o que interessa é que tenho que o pagar e mai'nada. Espero bem que os tais salários em atraso me sejam pagos quando prometido, porque noutro caso, não sei como vou pagar...

Dia 8

Querido diário: hoje fui outra vez ao hiper. Os produtos frescos estão pela hora da morte e começamos a dar prioridade aos enlatados - são duas poupanças: os produtos são mais baratos e gasta-se menos energia a cozinhar. Claro que não sabem ao mesmo, mas a gente habitua-se. A conta foi outra de quase 150 euros e parece que o carrinho vem vazio. O saldo já está a menos de meio, mas o que sobra dá p'ra por à mesa até ao fim do mês.

Dia 9

Querido diário: o meu garoto hoje começou a tossir. A mulher diz que a casa está um gelo, mas vamos ter que aguentar assim - não podemos deixar a conta da luz para trás, ou eles cortam-na e se já é mau com frio, então com frio e às escuras ainda era pior. Como ela está desempregada, já dispensamos a mulher a dias e vamos mesmo passar a lavar a roupa manualmente - ainda lhe sobram mais 6 meses a receber do desemprego, mas isso passa num instante. Espero que depois arranje qualquer coisa, ainda que agora as empresas só queiram estagiários ou juniores - aos mais velhos, julgam-nos desactualizados e desprezam-lhes a experiência profissional anterior - preferem estes estagiários porque estão dispostos a trabalhar de borla só para conseguirem o averbamento do estágio. Talvez arranje qualquer lugar como telefonista ou caixa num hipermercado. Era professora de informática.

Dia 10

Querido diário: a tosse do miúdo agravou-se. Fomos às urgências e a médica receitou-lhe uns comprimidos e mais um xarope. Entre o pagamento da taxa moderadora (também não percebo o porquê de tal designação - só se for para moderar o impulso dos cidadãos para frequentar os hospitais, mas a qualidade dos hospitais do serviço público do país dos minimecos é tal, que não me parece que seja necessário moderar impulsos que não existem), mais a despesa da farmácia, o barco da economia doméstica sofreu mais um rombo no costado. Por enquanto, a situação ainda não é crítica e esta despesa ficou com o subsídio de desemprego da patroa. Também vai ser ela a pagar a inspecção do carro.

Dia 11

Querido diário: hoje faz anos a minha sogra - malvada da velha fica ofendida se não lhe fizermos um jantarinho com bolo e champanhe para o neto lhe cantar os parabéns e a minha mulher não dispensa o dar-lhe um presente. Odeio aniversários.

Dia 12

Querido diário: afinal, os anos da sogra não foram assim tão caros. E entre pais, irmãos, cunhados e sobrinhos, todos os meses há sempre alguma despesa destas para enfrentar. Mas ainda o mês não vai a meio e já só tenho um terço do que me depositaram. Não consigo compreender como vivem as pessoas que ganham o salário mínimo.

Dia 13

Querido diário: merda! O dia 13 é mesmo o dia do azar - tinha-me esquecido completamente que no mês passado fomos a Lisboa e agora chegou-me o extracto da Via Verde. Estou no ponto em que todos os tostões já contam e uma moeda de um cêntimo é guardada com tanto cuidado como se de uma nota de 100 se tratasse. Para ajudar a compor, chegou agora a conta da água... porque raio não mandam estas contas todas até ao dia 5, para a gente se organizar logo para o mês?

Dia 15

Querido diário: hoje vi na TV que as lojas de pronto a vestir começaram a fazer grandes promoções.  É pena não poder aproveitar, mas se for agora comprar roupa, arrisco-me a chegar ao fim do mês sem dinheiro... E como acontecem sempre imprevistos, a porcaria da máquina da loiça avariou - habitualmente, chamávamos o representante da marca, que vinha e facturava tudo como deve ser. Agora, temos que recorrer ao Zé da Esquina porque sempre se poupa o IVA e mesmo as peças ele mete-as a melhor preço (julgo que também as consegue por meio de algum cambalacho e devem ser igualmente isentas de IVA)...

Dia 16

Querido diário: estive a fazer as contas e ainda consigo ir outra vez ao hiper. Tenho que deixar dinheiro de lado para a propina escolar do puto e pode ser que consiga que não falte nada até ao fim do mês. Tal como está, com algum aperto, ainda vai dando. No entanto, já deixei de ir à peixaria da D. Perpétua - hummm, como era bom, aquele peixe fresquinho que ela ia buscar de madrugada à lota de Espinho - agora, compramos "douradas de aviário" importadas; não são tão boas, mas são muito mais baratas. Tanto pior para a D. Perpétua (dizem que está para fechar, mas não posso fazer nada)... imagino que para os pescadores também não esteja fácil. Ai! Não percebo para que raio o governo subiu o IVA - se ninguém consome nada, não é por aí que melhoram as receitas...

Dia 17

Querido diário: hoje é quase dia de festa - consegui chegar ao fim sem ter despesa nenhuma e sem ter gasto dinheiro. É claro que já deixei de tomar café, não compro jornais, nem vou a cinemas - não sei como é que essa gente que vive de tais negócios se arranja e até gostava de os poder ajudar. Infelizmente, já me dou por feliz se eu próprio não precisar de ajuda.

Dia 18

Querido diário: hoje quase bati com o carro. Normalmente desligo o motor à entrada da rua, para aproveitar a descida e poupar algum combustível, mas desta vez aconteceu que um miúdo se me atravessou e quase não conseguia travar. Consegui segurar o carro - o que não consigo é segurar o gasóleo no depósito: quando comprei o carro, há 8 anos, enchia o depósito com 30 euros e agora o mesmo combustível já me custa 75. E amanhã vou ter que ir enche-lo, porque já anda na reserva há 2 dias e se assim continuo ainda fico pelo caminho.

Dia 19

Querido diário: hoje recebi a carta da companhia de telecomunicações a dizer que ou pago os dois meses em atraso, ou cortam-me o serviço. Lá terei que reactivar a antena parabólica para apanhar televisão à borla e tanto pior para a internet. Para não termos tentações, já tinha tirado o cabo do telefone da ficha sem a mulher saber.

Dia 20

Querido diário: do que me depositaram este mês, estou reduzido a uns míseros trocos. Ainda me considero um cidadão feliz e privilegiado, porque a mulher ainda recebe do desemprego e porque conseguimos pagar o carro e não ter outro crédito pendente além da casa. Como não faz sentido manter este diálogo sem ir contando o que se passa - ou seja, quando não se passa nada - fico por aqui, até que me depositem novo vencimento. Deixo as preces de que não me tenha esquecido de despesa alguma ainda por enfrentar e de que o meu empregador de facto cumpra o prometido e pague os tais 2 meses em atraso...

Como é que se vive com o salário mínimo? Como é que se aguentam situações de meses a fio com salários em atraso? Como é que se sobrevive ao desemprego prolongado?

Não faço ideia... sou mesmo um privilegiado!


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