Malta!
Digo-vos que tendo sido eu a autoridade papal a reconhecer a existência dessa entidade política e autónoma que é o Minicómio, é-me - sempre que não me resta outra opção - desconfortável falar de realidades fora deste país imaginário e (cof cof) impossível de testemunhar.
Por vezes a vida do resto do mundo fala mais alto e não resisto a comentá-la.
Para isso, tenho que transpor as fronteiras da ficção (tenho passaporte e visto de imigração legalizado) e descrever as realidades desse mundo a que procuro fugir fixando a minha residência no país dos minimecos e micromecos e de muitos outros badamecos.
Hoje deu-me, portanto, para falar do pontapé nas bolas (oooops - isso é no Minicómio! no resto do mundo é football, ou futebol, ou, no mundo hispanico onde se cultiva ao extremo a protecção da própria língua, balonpied).
E a que propósito vem isto?
"Deixade-me" fazer um recapitulativo de alguns dos grandes craques do passado desta modalidade:
Ferenc Puskas, Alfredo di Stefano, Edson Arantes do Nascimento (Pélé), Eusébio da Silva Ferreira, Diego Armando Maradona... em mais de 100 anos da modalidade, poucos nomes reunirão tanto consenso na votação para o panteão dos GRANDES como estes.
Isto, até à década anterior, em que dois nomes surgem com lugar garantido nesse panteão (mas deixem-nos lá morrer primeiro, de preferência, de velhice):
Lionel Andrés Messi Cuccittini e Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.
Cada um deles tem uma imensa legião de admiradores, cada um deles tem uma imensa multidão de detractores.
Eu, que vos escrevo, não escondo a minha preferência pelo "nosso" (as referências recentes bem demonstram que não é nosso nem de ninguém, mas isso é algo que só está ao alcance de poucos).
Falemos então deste (ou melhor: deixem-me falar):
Não vou aqui falar do passado dele, embora algumas pinceladas sejam imprescindíveis para lhe pintar o retrato: oriundo de uma família humilde, onde imperavam vários caracteres normalmente associados a inimigos do desenvolvimento individual, este MEU herói tinha tudo para falhar.
Dizem todos os relatos que ele comeu o pão que o diabo amassou antes de dar a volta por cima, mas que nunca desistiu nem nunca perdeu o foco - sempre soube onde queria chegar e o que queria ser.
Na verdade, não sei se não terá começado por objectivos mais modestos, mas que à medida que viu concretizados, foi procurando novos horizontes (se por improvável casualidade ele um dia ler esta prosa, ele que confirme ou negue isto que acabo de especular).
Sei que começou no Sporting Clube de Portugal, clube onde começou a brilhar antes de ter idade para isso. Daí às convocações para a selecção foi um salto e lembro-me do que me chocava o nosso Euro-2004 em que outro craque (muito bom, mas talvez ofuscado por um brilho mais puxado que natural do outro, foi muito injustiçado) naturalizado, em vários jogos carregou a selecção portuguesa às costas, mas todos os créditos eram atribuídos a um miúdo cada vez mais mimado e embirrento, que pouco fazia para justificar o crédito que lhe atribuíam - estou a falar do Anderson Luíz de Souza (mais conhecido por Deco).
Cristiano Ronaldo, ainda um diamante em bruto, comportava-se como uma prima-dona que se tomava por todo o coro e toda a orquestra.
Os tempos passam, as pessoas mudam e os diamantes em bruto lapidam-se.
Hoje, os números falam por ele.
Hoje, ele pode permitir-se vir à imprensa e dizer o que lhe vai na alma (lembram-se de em tempos Luís Figo ter feito algo semelhante em relação à selecção?)
Honestamente, tenho uma enorme admiração pelos nossos emigrantes - queiram ou não, Cristiano Ronaldo é um deles.
Mas em relação ao emigrante comum, há que dizer que há alguns traços que o distinguem, a par de tantos outros que o aproximam:
- Tem uma origem humilde e a percepção de que se se quer ver valorizado tem que sair daqui
- Tem uma educação pouco acima do analfabetismo, mas foi para Espanha e aprendeu o castelhano, foi para Itália e aprendeu o italiano, foi para Inglaterra e aprendeu o inglês (um menino bem com educação superior passou mais de uma década em França sem ter conseguido dominar o francês - escuso-me de dizer quem foi, mas só foi grande aqui... e não para todos)
- Tem uma capacidade de definir objectivos e lutar como poucos, algo só ao alcance dos estóicos
O que mais o distingue do resto dos emigrantes é que ele - caso único em Portugal e no mundo - na sua área profissional conseguiu resultados traduzidos por números que mais nenhum outro conseguiu.
Haverá sempre quem diga que não, que o Messi tem mais bolas de ouro - pois. Mas as bolas de ouro foram conseguidas por votação (ou seja, sujeitas ao gosto subjectivo dos votantes), enquanto que os números do nosso foram conseguidos por ele, com os próprios pés, em frente a milhares de pessoas e não na escuridão de gabinetes.
Não vou dizer que o outro não seja bom. Mas tenho dúvidas que esteja acima do nosso.
Talvez esteja na altura de ele arrumar as botas. Afinal de contas, só guarda-redes o ultrapassam em longevidade competindo a este nível - outros que continuaram, passaram para campeonatos de competitividade e exigência inferior, o que não tem comparação com estes onde ele ainda compete. Embora muitos opinem sobre isso, a decisão é dele.
A fechar:
Como português, claro que gostava que a selecção trouxesse o caneco. Como admirador de alguém que chegou muito mais longe do que eu e do que todos os outros que o criticam, teria um gosto acrescido em ver a selecção ganhar com ele (mesmo sabendo que se isso acontecer, haverá portugueses tão estúpidos que irão dizer que ganhou "apesar dele").
Não sei o que ele ainda nos vai dar.
Ele que saiba que lhe estou grato pelo que já nos deu. Gostava que os meus filhos tivessem a mesma atitude.
Se ele é o maior ou não, isso fica ao critério de cada um.

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